Tênis Para Ir Longe

Quarta-feira, 03 de maio, 6:30h da manha, 4° dia de treino com os “Corredores de Rua”, cerca de vinte (esqueci de contar e lista de presença não ficou comigo) doze já “veteranos” e oito novatos.

Claro muitos só estão ali para ganhar os tênis, que, como combinamos, só seriam entregues para os que forem pelo menos 3 dias, e quem somos nós para julgá-los, eles não têm nada…como também é notório que muitos desses tênis se tornarão, infelizmente, moeda de troca, mas se um, um par de tênis, tirar um único par de pernas da rua que seja, já terá feito tudo valer a pena.


Um alongamento básico e começamos um trote leve, no pátio mesmo, 4 séries andando 2 minutos, correndo 3 e, por último, 5 minutos direto.
Eu puxando a fila, narrando o cronômetro, tentando animar a turma e ao mesmo tempo de olho para se estivessem cansados.


Atrás de mim Iago e Fabrício, dois das minhas apostas como futuros bons corredores, presentes e levando a sério desde o início. que alegria!
Algo me incomodava, sim, os chinelos,o barulho dos chinelos correndo… não pelo chilenos em si, mas por me dar cota que está frio…e que é aquilo que usam, sempre, chinelos rotos e de sola lisa, de tão gastos.



Então, no final do treino, entregamos os kits que já montamos com as doações recebidas, agitação,alegria estampada nos rosto e a decepção em outros… sim faltaram alguns pares 40, 41 ,42 e 43.


Não podemos deixá-los desanimar, o primeiro passo foi dado, estão dispostos a mudar, e isso é o mais difícil. Não é mesmo? Mudar exige renuncias…e para eles, ainda mais, exige acreditar na mudança e confiar no outro.


Agora, em casa, percebo que minha ótica mudou para tudo, como sou grata pelos meus pés estarem quentinhos, por esse pão com manteiga na minha frente, teto sobre a minha cabeça…vejo as coisas de forma diferente, vejo as pessoas de forma diferente, como GENTE.


E aí perco a vergonha de pedir…


Então, vc aí que tá com aquele par de tênis parado em um cantinho, pensa que ele pode levar alguém muito longe! Precisamos deles até domingo, para que a turma possa se apresentar devidamente preparada para o nosso treino solidário. Pode ajudar? Deixe em um dos Mocca Coffee and Meals, obrigada!
Até domingo!

LB
Domingo, dia 7 de maio, será realizado um Treino Solidário em prol do Projeto Vou Correndo saindo do Mocca Coffee and Meals. Parte da renda arrecadada no café da manhã será doada para os “Corredores de Rua” #vempromocca #voucorrendo

Ela Acordou

Acordou com febre…é,definitivamente ela não está nos meus melhores dias.
Ainda deitada,aproveitando um dos raros momentos em que pode se dar a esse luxo, se pegou pensando na mania que temos de julgar o próximo e como de fato nunca nos colocamos no lugar do outro.

Estava com raiva por ter sido levianamente julgada e destratada no dia anterior…talvez (com certeza) por isso estivesse tão abatida.

Nesse mesmo instante,o sentimento de raiva que estava dessa pessoa teoricamente e convencionalmente “próxima“ que não quis falar com ela,ao telefone, em uma situação pesada…em que todos precisavam ajudar,tranformou-se no mais genuino sentimento de pena,dó.

Sim,afinal de contas,o infeliz não sabe nada da vida dela,não sabe e não quer saber…a sua visão é restrita ao mundo que lhe cabe,e não há nada de errado nisso.

Ele não tem ideia, por exemplo, de que quem estava do outro lado da linha só não passou mais aperto recentemente porque uma amiga lhe deu uma cesta básica e outra, depois,fez um farto super mercado. Ele não sabe o que é rezar para não lhe cortarem o gaz e a luz.
Ele não sabe o que é enxergar-se totalmente só e desamparada e sentir a responsabilidade do mundo em suas costas.

Ele não tem a mínima ideia do esforço que ela faz pra manter um sorriso no rosto apesar disso tudo…

Não, definitivamente ele não sabe.

Ele também não sabe o que é,no meio da tempestade,dar-se conta de que tem muita gente ainda pior do que ela e que, do seu jeito, ainda tem muito o que ofercer, porque tem algo inestimável,a sua fé.

Sim ela tem o Espírito Santo dentro de si, e isso ninguém pode lhe tirar.

É…ela tem amor de sobra,pode e deve dividir e talvez isso, ele nunca sinta.
Que pena.
E ela acordou.

Bom dia.

Corrida do Bem Contra o Mal

Ando cansada…o batido de quem “vive de bico“ ou em francês pra ficar mais chique “je vie de beque“, não é fácil.
Não se trata só de matar um leão por dia,o mais difícil é achar o bichano!
Bem,mas esse é outro assunto. Só sei que estou tão cansada que nã
o tenho tido forças nem pra ir no meu querido e necessário estudo bíblico.
Daí me lembrei que me disseram que quando eu começasse com o trabalho voluntário,ainda mais onde é,o mal não ia gostar nada…que eu então me preparasse.
Agora entendo,porque,se existe um inferno,ele deve ser parecido com as cenas que a gente vê por ali. Homens vagando imundos,de boca aberta,babando,como zumbis…drogados. Caximbos de crack acessos na sua frente,quando muito escondidos em uma especie de cabana feita com o cobertor sobre a cabeça.
Dentro do albergue é limpo,pra isso todos sao colocados para fora as 7h,e aí a cena na rua choca ainda mais. São 400 homens,como eu e vc,muitos por opçao sim,por escolha,como vc deve estar pensando,mas outros tantos simplesmente por não conseguirem vislubrar a menor saída que seja.
É por esses que estou lá,por esses reuno forças sabe-se la de onde e abraço,rio e estendo a mão,literalmente.
E quando a gente estende a mão,outras mãos do bem aparecem, como meu amigo médico cardiologista que se ofereceu pra ir la amanhã fazer eletro e exame clinico pra ver quantos dos 20,estão aptos para arriscar ate mesmo um trote de 5 minutos…eu nao seria louca de coloca-los em risco.
Ontem tambem meu treinador,educador físico, se dispos a passar os treinos para os que de fato queiram se aventurar no mundo da corrida.
Ontem também decidimos fazer um “treino solidario“,saindo e chegando no Mocca, que vai doar 10% de seu faturamento desse dia para confecçao de uniforme pra turma. Nesse dia os atletas levarão tênis para serem doados.
Então,voltando ao início do texto,
peço desculpas a deus por não ter ido no estudo bíblico hoje cedo, mas sei que o Senhor está ao meu lado e que tem mandado anjos pra cuidar de mim e de minhas filhas. Faço desse texto,minha oração de agradecimento e peço para que me dê ainda mais forças pra seguir em frente e não me deixar abater pelo mau que tenta a todo custo nos tirar desse caminho.
Amém
LB

Corredores de Rua

Ainda em um misto de êxtase e choque, tava aqui pensando na experiência de ontem.
Chegando no Albergue no bairro Floresta,perto do viaduto,de cara com um usuário crack na porta, do outro lado da rua,com o cachimbo
acesso…
Erica,a coaching voluntária que convidou a mim e ao peregrino Bê Santanna e nos “apadrinhou“ nesse projeto que iniciaríamos agora,já havia nos preparado para cenas como essa,acontece que uma coisa é ouvir,ver na TV,a outra é vivenciar…dói.
Respirei fundo e fui,tinha rezado mentalmente minutos antes,pedi que o Espírito Santo falasse através de mim e do Bê.
Entramos,o albergue é uma construção antiga,mas bem conservado,mantido pela Fundação Darcy Ribeiro com apoio da PBH, conta com seguranças na porta e um quadro de funcionários como supervisores, monitores,além de voluntários,como eu passaria a ser assim que cruzei aquela porta.
Fomos bem recebidos,um boa noite aqui outro ali sob olhares desconfiados e curiosos,o que é mais do que normal se imaginarmos uma mulher loira entrando em um ambiente de que dá abrigo para cerca de 400 homens,oferecendo comida,banho e colchões.
Coração a mil,não por medo,aliás não senti medo um segundo sequer,nervosismo mesmo,ainda no carro e “agindo com o coração“, combinei com o Bê que eu abriria a palesta e ele fecharia,pois aprendi com experiência em cerimoniais que o mais importantes deve ficar para o final.
Seguindo o funcionário responsável pela turno,Adilson, atravessamos corredores em direção ao pátio,quartos amplos com vários colchoes encapados de vinil azul, alguns ocupados mas a maioria vazios, ainda eram 20h, a turma estava chegando. Banheiro,de porta aberta,um refeitório grande , um barbeiro cortando o cabelo de um enquanto outros aguardavam e chegamos. A cena não é fácil, muitos deitados no chão,alguns bêbados ou drogados, outros jogando truco, ali haviam de 50 a 100 pessoas espalhadas em uma área de cimento, coberta,com paredes pintadas de branco e verde. O cheiro, apesar de suportável, não é agradável, so toma banho quem quer, porque segundo o “Direitos Humanos“, não se pode obrigar ninguém a se banhar…difícil entender, eu sei.
Bem, mas essa é outra história, imediatamente fui cercada por uns três ou quatro,queriam saber o que eu ia falar, qual era o tema. Um deles, de óculos e bem articulado, me olhou nos olhos e disse desafiador: ”Corrida? Sou professor, dá uma palinha então,mostra o que vc sabe,quero ver.“
– Vc vai ver – respondi – vc e todo o resto, vou caprichar, vim até com meu tênis vermelho! E mostrei os pés.
– “Olha, esse tênis é da Cola Cola, isso é a tocha? Perguntou apintando pro tubo que eu carregava. “
– É sim, daqui a pouco te mostro. – completei.
Outro se aproximou mais, cheirou meu pescoço e elogiou, não gostei, estiquei o braço em direção ao Bê e falei alto:
– “Bê, olha isso aqui, tão me assediando!“ – numa espécie de pedido de socorro bem humorado.
No mesmo instante o cara perguntou se eu era esposa dele, o Bê riu e respondeu: “É como se fosse.“
E o mais ousado se afastou.
Peguei uma mesa de plástico que estava em um canto, coloquei minha mochila em cima e tubo com tocha do lado. Erica, que já é conhecida de muitos ali,pediu a atenção e fez uma breve introdução.
Alguns poucos se aproximaram, olhares desconfiados de quem recebe muito mais “nãos“ do que “sim“ . Era a minha vez….
Pedi pra turma sentar, me apresentei como Laura,só Laura, recepcionista em um restaurante, contei uma historinha do paulo Freire que mostra que ninguém sabe mais do que ninguém e juntos poderíamos aprender mais, expliquei que eu estava ali não pra falar de “vida“, sabia que sobre isso eles poderiam dar aula, mas sobre correr comi a corrida é capaz transformar.
Então eles foram se chegando e sentando, um início de briga em um canto e um negro forte bem a minha frente levantou os braços e bravejou: -“Olha respeito com a moça“! 

Pronto, eu mereci respeito,valia a atenção.
Contei da perna quebrada durante a maratona, do desemprego, da China, do deserto do Atacama e então tirei o troféu da mochila, recebi uma salva de palmas e um mais engraçado levantou-se, me deu um abraço. E fingiu pedir um autografo.
Tirei a tocha olímpica e pedi para que passassem pra frente para que quem quisesse a segurasse, os olhos brilhavam, queriam saber tudo.
Falei então da proposta de formarmos um grupo de corrida.
Dois se destacaram, o fortão que me defendeu e um rapaz mais novo logo perguntaram como fariam pra participar.
Falei que no final explicaria.
Ouvimos então o Bê e sua caminhada de 2.500km por amor a filha…sim dois mil e quinhentos, eu não escrevi errado.
Vi muitos se emocionarem e eu mesma tive que segurar as lágrimas,o moço é diferenciado.

Então ele fechou com a mensagem:
“Qualquer distância se faz com dois passos: o Primeiro e o Próximo.
O primeiro é Deus, o próximo é vc mesmo e também o outro, porque nunca estamos sós e sempre precisamos de ajuda.”
Saímos de lá com 15 inscritos, seus numero de tênis e eu com o compromisso de estar de volta na segunda às 6:30h.
Não podemos correr antes de exames físicos e orientações de um profissional, mas estarei lá, para uma caminhada e mais, para darmos o primeiro passo.
E assim nasce o primeiro grupo de corrida de pessoas em situação de rua: CORREDORES DE RUA
Amém.

LB

 

Corredores de Rua

12 de Abril – Há exatamente 2 anos,corri minha primeira maratona,em Rotterdam,terminei com o fêmur fraturado e, na volta da viagem, fui demitida…
Foi aí,quando não tinha mais nada a perder, que resolvi mudar e, contra tudo e todos, tomar as rédeas da minha vida e ir ser feliz. Depois disso publiquei meu primeiro livro (esgotado),conduzi a tocha olímpica e fui corre na China (14o lugar) e no Atacama (2o lugar).
Hoje aos 47 anos,bilingue,pós graduada e com passagem por 2 multinacionais,sou hotess no @moccacoffeebrasil ,resolvi correr 10 entre as mais difíceis maratonas do mundo, ganho pouco mais que um salário mínimo, tive que vender o carro,perdi amigas, ganhei outros,faço meus bicos e nunca, nunca mesmo, fui tão feliz! Sim,a corrida mudou a minha vida, pra valer!
Fui então convidada pra ser madrinha de parte de um sonho maior de ajudar as pessoas que vivem nas ruas a também mudarem as suas vidas batizado de “Trem das Sete“, que acontece em um albergue que acolhe cerca de 400 pessoas em situaçao de rua.
A minha missão? Apresentar-lhes a corrida e ajudar aqueles que queiran experimenta-la. Vou precisar além de tênis em boas condiçoes de uso pra galera, de toda a ajuda possível, educadores físicos,nutricionistas,doaçoes,alimentos e roupas de treino e tudo mais necessário para criarmos a primeira equipe de corredores de rua, a “Corredores de Rua“.
Quer ajudar? Vem comigo! Eu? Terça feira vou lá conhecer e falar pra galera, cheia de felicidade,orgulho e gratidão! Obrigada. #voucorrendo#corredoresdasruas