Sou uma manteiga derretida, choro com qualquer coisa, sempre fui assim… Acho engraçado porém como vou rapidamente do choro profundo a uma força, às vezes exacerbada e usada de forma errada, que nem eu mesmo acredito… juro que não sei ainda se isso é bom ou ruim. Mas já sei que sou assim, assumo!
Comecei a “trabalhar” ( detesto essa expressão, mas é assim que fala, né?) essas tais reações depois que a minha mãe morreu e mesmo assim por motivo de força maior. E põe maior nisso!
Eu ainda era casada, morava no Alphaville, passava muito tempo sozinha porque meu marido era piloto e voava com freqüência, tinha uma filha de 1 ano e 10 meses e outra de 3 meses quando minha mãe finalmente foi derrotada – depois de 13 anos de luta – por um impiedoso câncer. Ela estava em casa ( como queria e pediu) literalmente definhando, na cama, e a gente só
podia esperar, não havia mais nada a ser feito. Nem água, nem comida, só a morfina pra aliviar o sofrimento. Uma dor daquelas, sem tamanho…
Como minha irmã – que é médica e mora na Holanda – queria estar aqui quando chegasse a hora, pedi aos médicos uma previsão de quanto tempo minha mãe teria. A conversa era justamente pra poder avisá-la. A resposta, igual aquelas de filme, foi um alívio e um susto: “agora é questão de horas, dias no máximo…”
Quando minha mãe, ainda lúcida, viu minha irmã chegando ficou uma fera. Falou que só por isso não ia morrer enquanto ela não fosse embora. A mulher encarava até a morte de frente. A morte, com medo dela, obedeceu e só a levou uma semana depois que minha irmã tinha voltado para Europa. Um mês depois do previsto pelos médicos!
Daí chegou a tia Dorothéa ( irmã da mamãe), não imagino como teria sido sem ela naquele momento, ajudou demais. Mais do que a gente acha que dá conta, ela deu… Muito obrigada!
Foi nesse intervalo entre a ida da minha irmã e a morte da minha mãe que comecei a escrever. Enquanto ficava na casa do meu pai, com uma neném de 3 meses, ainda amamentando, escrevi sobre mim, sobre minha mãe, sobre a morte e a vida. Os textos são lindos, profundos, e estão perdidos… Não fiz back up e o computador estragou. Tenho esperança que meu irmão ou outro familiar tenha guardado os e-mails.
Eu achava que estava bem… tinha que estar, afinal de contas eram dois bebês dependendo exclusivamente,de mim. Minha mãe estava morrendo, mas a vida continuava, no caso a minha e de mais duas. Não havia espaço pra luto antecipado, como também não cabia mais sofrimento.
Minha mãe morreu dia 9 de junho de 2005, uma manhã clara e fria. Eu tinha acabado de falar com meu pai, quando telefone tocou novamente e vi que era ele eu já sabia… Sentimentos conflitantes tomaram conta de mim: alívio, dor,alegria tristeza…tive certeza que por mais que a gente tente se preparar nunca estaremos prontos pra lidar com a morte. Ainda bem que é assim… gente não é máquina.
É nesses momentos que a vida testa a gente e na mesma semana veio mais uma lambada. O pote então transbordou…
Na noite anterior à missa de sétimo dia da minha mãe, Helena, com 3 meses de idade, chorou e fui trocar sua fralda.
Tinha um pouquinho de sangue, acordei o pai dela que apesar de ter a aviação como atividade principal é um excelente fisioterapeuta e conhece muito da área de saúde.
Ele olhou, falou que podia ser só um vasinho rompido e que como ela estava calminha que voltássemos a dormir. Nem meia hora depois ela chora novamente, quando olho a fralda era puro sangue, encharcada!
Corremos com ela pro hospital. No exame de toque o sangue esguichou na parede, dali para o ultrasson, do ultrasson direto para a sala de raio x pra tentar reverter o intestino que virara do avesso ( como a gente faz com meia) através de um procedimento chamado enema.
Apesar de não ser cirúrgico o tal do enema deve ser um horror: um produto pastoso é introduzido no anus para , com a pressão, reverter a invaginação intestinal.
Até então eu estava “ inteira”, Tavinho entrou com ela e a cirurgiã para fazer o procedimento quando meu pai chegou no hospital. Era demais pra mim, meu pai viúvo a menos de uma semana, agora estava novamente frente a frente com a possibilidade de mais uma perda. Ele chorou, aí então o abracei e chorei, muito… Tudo o que não havia chorado antes. Transbordei…
O tal procedimento “menos” invasivo não deu certo, a solução agora urgente era uma cirurgia. Meu Deus, que desespero ver aquela coisinha mais linda, branquinha com dois olhões assustados iguais aos meus, sendo levada já com soro pro bloco no colo do pai.
A cirurgia, como todas, tem seu riscos, mas é considerada simples. E foi, em menos de duas horas estava tudo terminado e Helena estava bem. Nova em folha, com um corte que tomava metade da barriga, pontos e soro, mas estava bem! Ufa!
O pai dela tinha que voar, era missa de sétimo dia da minha mãe, minha família tava toda lá. Fiquei sozinha… Minha outra filha também sozinha em casa com a babá.
Perdi a missa da minha mãe, meu irmão leu um dos meus textos e explicou a minha ausência.
Minha prima Mônica se ofereceu pra “dormir” comigo e com a Helena no hospital, nunca esquecerei isso, sou eternamente grata. Minha pequenina chorava muito, imagino que de dor e fome… Foi também a única vez que vi minha prima chorando. Como ela me ajudou, não sei se teria dado conta sem ela, até convencer a enfermeira a deixar eu dar uma mamadeira ela conseguiu.
Depois disso tudo veio a separação, aí precisei de ajuda profissional. Apesar de ter tido uma mãe psicóloga e ter irmã psiquiatra sempre fui muito resistente a essas coisas de terapia e remédio. Com os remédios continuo sendo – minha experiência não foi boa, fiquei completamente mongolóide, tiraram Pedro Augusto ( o neurônio alone) de circulação. Mas a terapia, essa sim, me ajudou e muito! Mas também, na tal “terapia sistêmica”, foi cada paulada na moleira que se não concertasse matava.
Hoje acho que estou bem. Escrever é outra coisa que tem me ajudado muito. Mas às vezes dá umas baixas, como agora…
Helena hoje tem 5 anos e está ótima, quase não ficou cicatriz e nunca mais teve nada. Graças a Deus.
Ontem a noite essa minha menininha, que deu um sustão na mamãe, pediu pra dormir comigo. Deitamos e liguei a TV pra assistirmos um filminho juntas. Estava passando “Encantada”, um filme da Disney desses de princesa, com cantoria, bruxa, maçã, príncipe, amor verdadeiro e happy end. Claro que chorei no final, a Helena me abraçou e disse: “Não chora não mamãe é só filme”.
Mamãe sabe filhinha, mamãe sabe…
Snif! (sério)
Vou procurar os e-mails…
Beijos,
Ronaldinho
Naldo,
Obrigada e snif !( sério) também.
Bjs
Laura
Laura, vc tem o dom! E tenho certeza, que Deus gosta muito de vc… por ensinar com as suas palavras a sorrir e chorar. Como eu tenho dado risada com os seus textos, mas esse, não deu. (snif)
Michele,
Imagino que realmente tenha te tocado, sei bem porque!
Mas agente é assim, né, ri quando tem que rir e chorar o que tem que chorar, mas na maioria do tempo somos super divertidas!
Obrigada ( snif)
Quero deixar aqui meu protesto!!!!!! Eu so nao dormi no hospital naquele dia mas fiquei la ate tarde…. Nem fui a missa da tia Leticia ( tinha permissao para chama-la assim! Privilegio de poucos).
Outra coisa: voce disse que viu a Monica chorar, nao era delirio nao???
Goldenês,
Verdade, vc passou o dia lá, como sempre do meu lado…
Mônica chorou, acredita!? Mas pode ter sido pelo esforço, ela ODEIA hospital!
Ai, meu Deus… textos mais do que emocionantes…e vc, como sempre, escrevendo divinamente.
Não foi pelo esforço …vc sabe ! Mas só em casos de crianças e animais … bjs
Mônica,
Claro que eu sei. Sei também do seu carinho e de como dividiu comigo a dor daquele momento.
Amo vc.
Obrigada mais uma vez!
Laura
Tenho lido diariamente seu Blog, Laura. Você realmente tem o dom de tratar de assuntos sérios e divertidos com a mesma desenvoltura e bom humor. Parabéns!!!
Agora, pára de me fazer chorar, %$#@#$¨!!!
Eu leio o blog no escritório e fica feio um marmanjo de gravata ser apanhado pelo estagiário vertendo lágrimas na frente do computador, como acabou de acontecer… rsrsrsrsrs
PS: Long live Pedro Augusto!!!
Pagani,
Muito obrigada pelos elogios! Sugiro que não leia o “Caderneta de Telefones” no trabalho…
Conforme explique no “about” não tenho nenhuma pretensão literária, mas se rolar…
De qualquer forma, fique tranquilo, já voltei ao normal ( anormal) e Pedro Augustos rocks!
Kisses,
Laura,
realmente muito comoventes os textos. Do drama a comédia me fazem chamar atenção da turma no escritório pelas minhas reações, mas sempre no fim fica uma cara de satisfeito; satisfeito de ver vc escrevendo tão bem e tão feliz nesta “profissão”.
Bjs.
Gustavo,
Comentários e elogios seus e da Kika são sempre bem vindos!
Realmente aqui me encontrei, com todas as dificuldades ainda ficou doida pra chegar a noite e escrever. Imagino que seja mais ou menos a mesma sensação que vc tem quando termina uma maratona, cansa, desgasta mas a cabeça já está na próxima, não é verdade?
Estamos então os dois satisfeitos!
Bjs
Chorei também, ainda bem que a internet tava fora do ar na Chucrutelândia. Eu ia morrer de chorar em alemão. Postei meu texto da missa de 7o dia depois do “Caderneta” (essa palavrinha é tão “mamãe”).
Laura,
Semana corrida, fiquei uns dias sem entrar e, como viciei no seu blog, li vários textos para ficar “em dia”! Já ri muito e agora tô até inchada de chorar…Choro de emoção, de tristeza, de saudade…da sua mãe, dos tempos em que dormia direto na sua casa…e choro por não ter estado tão ao seu lado nestes momentos que vc contou. Na verdade, me deu um branco de qdo sua mãe partiu…lembro de ter ido visitá-la pouco tempo antes no apartamento novo. Foi minha despedida! Letícia significa alegria, mas sua mãe era mais que alegre…uma alegre e admirável guerreira!!! Sinto saudades!!
(se a Mônica ler, vai dizer que não tem vantagem nenhuma em me fazer chorar…choro até em propaganda de margarina!!!! Mas esse me tocou de verdade!!!!)
Achava que vc tinha o dom de escrever coisa engraçadas… Na verdade, vc tem o dom de escrever. Ponto!!!
Mil bjssss
Titi querida,
Não precisa estar do lado pra estar perto. Isso é amizade!
Obrigada mais uma vez pelos elogios, sou sua fã!
Beijos
Laura, preciso ir dormir, amanhã Alice me acorda cedo, sem falar na madrugada. A cada texto falo: é o último e vou deitar. Mas adoro, não consigo parar de ler, fico rindo e imaginando as cenas. Mas esse doeu meu coração. Tudo bem com Helena, graças a Deus.
beijos
Denise!
Como está a sua Alice, vi pelas fotos que ela é mais linda dio que a foto que escxolheu pra 9olhar quando ficasse grávida!
Beijos e muito obrigada,
Laura,é incrível,vc me contou esta história hoje,mas a forma como você escreve me detruiu!Parabéns pelo talento e me desculpe o descontrole ,pois eu sou uma mãe e uma filha desesperada de amor….Bjs
Amor não tem tamanho!
Beijos e obrigada( mais uma vez!)
Laura
Emocionante….A vida é bela demais né? Temos que dar valor a simplicidade das coisas e aos momentos que estamos com quem amamos!!! Já tinha uma noção disso, mas agora…senti na pele…e doeu muito…Graças a DEUS (obrigada por esta chance) ela está bem e voltando para casa amanhã…Foi só um cutucão, mas valeu para uma vida toda. Beijos
Beijos Fê!
Emocionante!!! Por isso e por tudo que temos que viver intensamente e dar muito valor aos momentos de felicidade, Laurinha!!! Assim como conversamos ontem… amiga!!! Forca, Felicidade, Saude, Amor e Paz!!!! Bjssss.
Laura vc achou os textos? me fale quais são… nossaaa to (de verdade) bem comovida… tb passei por perda ( meu irmão) recentemente… tb me separei… enfim… as coisas da vida. To chegando à conclusão que estou fazendo “Blogterapia” com seus posts… adoro!! beijos
Valeria, Fico feliz que esteja ajudando de alguma forma. Ainda não li seus textos, mas prometo arrumar um tempo!
Bjs
Acabei de ler…toda arrepiada;;; e cada vez mais sua fã !!! Amiga linda e GUERREIRA !!! Bjo
Snif ….. Linda a maneira como vc descreveu tudo! O melhor foi saber que depois deste dia difícil de importantes lembranças vc foi agraciada com o carinho da sua lindinha! Super bj
Não sou de chorar. E não chorei. E nem se tivesse chorado eu admitiria aqui, assim, publicamente. Mas meus olhos se encheram de lágrimas…
Seus textos tocam no fundo.
Chora não…
Muito Obrigada!
Descobri seu blog hoje, e achei incrível como temos histórias semelhantes. Sempre fui muito resistente à terapias, psicólogos, psiquiatras, achava que se eu sabia a razão da minha ‘tristeza’, não precisava de ajuda. Perdi minha mãe dia 9 de julho de 2010, depois de uma batalha contra um câncer de mama muito agressivo. Me convenceram a tomar anti-depressivos, porque já tive câncer de mama e fiquei muito impressionada com a morte da mamãe. Mas continuei resistindo à terapia. Faz 2 meses que eu e meu marido nos separamos. Pirei. Agora sim, preciso e procuro todo tipo de ajuda: amigos, psicólogos, remédios, johrei, massoterapia, leitura de blogs… Você escreve de forma leve, divertida e cheia de emoção. Adorei!
Cynthia,
Mandei um e-mail pra vc! Bjs
Laura, que lindo seu post.
Estou com os olhos cheios de lágrimas… admiro muito você, pelo seu trabalho, seus textos e pela garra que você tem (isso pelo pouco que eu sei…).
Bom desejo tudo de melhor a você… e só de ter duas filhas maravilhosas você já pode se considerar muito iluminada.
Feliz dia das mães!!!
legalzinho
Gratificante ler isso comendo mingau
Muito cintilante as cores da sua escrita
Muito obrigada! adorei “cintiliante” como adjetivo.
Bjs
Cintilou !
O mundo é uma festa. As traças comem o antigo. O novo é do urubu.
Nossa, minha boca até secou…Os seus textos mexem com o Pedro Augusto de cada um…Vão da gargalhada ao soco no “estombago”! Parabéns pelo talento e pela sensibilidade! Como diz minha mãe: A Laura vai ser famosa!!!
Beijos, Fê
A força, a superação humana não tem limites. Reviver este posto com este comment só tem um sentido: explicitar o quanto você é forte.
bjs
Obrigada!
Nada de mais nem de menos. Macarrão de Santa Casa. Bolinho de água.
Pra comentarista de blog esta tal de “filha justa” sai uma bela (o) barwoman. Até comentário de facebook a pessoa “plagiou”. Estes dias li o “macarrão de santa casa” no perfil da Laura.
Vir em blog pra falar que que o texto não tem nada de mais ou menos parece muita falta do que fazer.
Amei, como sempre ! Beijo !
Obrigada querida!
Ei, Laura, vim por causa do comentário, mas li o texto todo. Esse povo que diz que ficou com lágrima nos olhos está mentindo. Tenho certeza que todo mundo chorou. Eu chorei e solucei. Beijos!
Fantástico!! Dá pra viajar junto e como disse, num filme, só um filme.
João Lenjob.
Muito obrigada!