Aqui estou eu, sentada na sala nova do apartamento recém inaugurado, construído no mesmo terreno onde era a casa onde vivi a maior parte de minha vida. O apartamento é claro e arejado. Porém nesse momento ele parece maior do que realmente é. Um vento frio de junho entre pela janela e a espera faz cada minuto parecer uma eternidade. Mamãe está morrendo.
Lá no final do corredor está ela, que foi como definiu Amália, “o porto seguro de toda a família” – tão pequena e frágil, levando a limites inimagináveis a condição humana, literalmente definhando. Mamãe deve estar pesando uns 40kg, ou menos. Já não consegue comer ou beber, respira com dificuldade, olhos fechados em um estado que chamei (não sei se existe) de semi-coma. Mas o coração está lá, firme e a cabeça também…
Letícia ama a vida, nunca entregou os pontos… é apegada à vida.
Tenho a impressão, que se não fosse a dor e a necessidade da morfina, ela ainda estaria -como sempre – com as rédeas de TUDO, medicação, alimentação até o controle da casa à frente de decisões importantes.
Mas agora, lá no escurinho, ela só quer ficar quietinha. Mamãe escolheu e pediu para ficar em casa e para que não tentássemos prolongar sua vida. Já houve sofrimento suficiente.
Entro no quarto para dar uma olhada, ela sussurra: “Quero ir embora”. Respondo de imediato: “pode ir mamãe, agora não vai demorar muito mais”.
Meu coração doeu, as lágrimas saltaram sem controle em um choro silencioso. Muitas lágrimas… e nenhum som, a não ser o do aparelho que lhe fornece oxigênio.
Saio do quarto com a caderneta de telefones dela para pedir a Amália que venha pra cá. Estou sozinha, Dorothéa deu uma saída, a solidão aproveitou-se de minha fraqueza e tomou todo o apartamento.
A caderneta é pequena e modesta, mas seu conteúdo é invejável. Percebo naquele momento, que a caderneta traduz a minha mãe. Os nomes lá dentro são de pessoas que ela conheceu e amou durante a vida. De Frei Cláudio – intelectual, escritor e teólogo – a Rosa, empregada, que está conosco há tantos anos e que, no seu modo fechado e áspero de ser também ama a todos nós. Poucas pessoas, ao longo de 66 anos, conseguiram reunir no seu ciclo de amizades pessoas tão bacanas e queridas. Minha mãe é agora só uma casquinha, mas seu conteúdo também é invejável.
Volto ao quarto para devolver a caderneta para o seu devido lugar – mamãe sempre foi cuidadosa com suas coisas. A caderneta fica dentro de uma bolsinha de plástico que a Malu deu. A bolsinha é igualmente simples, de plástico flexível e transparente. Lá dentro está sua carteira e todos os documento que viremos a precisar. Lá também está Letícia, simples, prática e transparente.
Letícia amou – ama – a vida e as pessoas. Mamãe via , por dom e por profissão, a alma das pessoas. Com isso sofreu mais, mas viveu também muito mais intensamente.
Acho que aí está a chave de seu apego à vida. Mamãe conhecia a simplicidade do “viver” e não se prendia – como a
maioria de nós – às “pequeninisses” criadas por nós mesmos como necessidades de “sobrevivência”.
Vai mamãe, que nós ficamos aqui porque ainda temos muito que aprender e ensinar.
Amo você.
Laura Fonseca Barreto 08/06/2005 – mamãe faleceu no dia seguinte às 9:15h da manhã muito tranqüila e serena
FOTO: Helena com 1 mês e mamãe.
É Laureta, vc ensinando que saudade é uma das melhores fontes de inspiração…
Tem dia que o que mais queremos mesmo é colo de mãe. Um cara que escrevia “um cadiquinho” certa vez soltou uma que traduz bem isso:
“Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei:
Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho”.
Lembre, chore, respire e volte logo a transmitir a graça da vida como faz diariamente. Estamos aqui!! Só te esperando!!
Beijos do SEU Núcleo Divertido.
Ronaldinho,
Muito obrigada por ter guardado e achado esse e os outros textos. Vou colocar um de cada vez pra não ter muito “snif, snif”.
Amo vc!
Laura
@Bella ( Núcleo Divertido)
Snif, snif..
Passou! Pelamordedeus!
Beijos
SNIF!!!!
Emocionante! Lágrimas nos olhos.
Laura, lindo!
SNIF!!!
bjs
Lendo eu me lembrei de um trechinho do meu livro de cabeceira (Um Livro do Rei Salomão, chamado “Eclesiastes”);
Cap 12
“Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento;
Antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva;
No dia em que tremerem os guardas da casa, e se encurvarem os homens fortes, e cessarem os moedores, por já serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas janelas;
E as portas da rua se fecharem por causa do baixo ruído da moedura, e se levantar à voz das aves, e todas as filhas da música se abaterem.
Como também quando temerem o que é alto, e houver espantos no caminho, e florescer a amendoeira, e o gafanhoto for um peso, e perecer o apetite; porque o homem se vai à sua casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça;
Antes que se rompa o cordão de prata, e se quebre o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se quebre a roda junto ao poço,
E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.
Vaidade de vaidades, diz o pregador, tudo é vaidade.”
Muito obrigada.
Laura, sem palavras para dizer o que senti quando li o texto.
Quanto sentimento ele carrega! Quantas palavras bonitas!
E é a prova de que o talento de fazer as pessoas se emocionarem ou rirem esteve sempre aí!
Beijos
Lendo os atrasados… Mandei meu texto para a missa de 7o dia da mamae (acima).
Beijo.
Tenho uma lembrança forte de sua mãe sempre com palavras
acertadas e sábias para nossa fase braba da adolescência,faço idéia do quanto ela te deixou de ensinamento!Vc foi abençoada com esta convivência e agora
estamos aqui para pegar uma rebarba….Bjs
Muito obrigada!
Vc é um amor!
[...] Escrevi esse texto, posteriormente publicado como “preâmbulo” do livro da minha mãe – Maria Letícia Fonseca Barreto – intitulado “Sala de Espera”, publicado de forma independente em 2004, para contar que [...]
[...] isso com a minha mãe, ela morreu em casa- por escolha dela – e sabia que estava morrendo, escrevi sobre isso aqui. Felizmente nenhum de nós sabe quantos capítulos terá o seu livro, o do Chico pode durar mais 10 [...]