Corredores de Rua

Ainda em um misto de êxtase e choque, tava aqui pensando na experiência de ontem.
Chegando no Albergue no bairro Floresta,perto do viaduto,de cara com um usuário crack na porta, do outro lado da rua,com o cachimbo
acesso…
Erica,a coaching voluntária que convidou a mim e ao peregrino Bê Santanna e nos “apadrinhou“ nesse projeto que iniciaríamos agora,já havia nos preparado para cenas como essa,acontece que uma coisa é ouvir,ver na TV,a outra é vivenciar…dói.
Respirei fundo e fui,tinha rezado mentalmente minutos antes,pedi que o Espírito Santo falasse através de mim e do Bê.
Entramos,o albergue é uma construção antiga,mas bem conservado,mantido pela Fundação Darcy Ribeiro com apoio da PBH, conta com seguranças na porta e um quadro de funcionários como supervisores, monitores,além de voluntários,como eu passaria a ser assim que cruzei aquela porta.
Fomos bem recebidos,um boa noite aqui outro ali sob olhares desconfiados e curiosos,o que é mais do que normal se imaginarmos uma mulher loira entrando em um ambiente de que dá abrigo para cerca de 400 homens,oferecendo comida,banho e colchões.
Coração a mil,não por medo,aliás não senti medo um segundo sequer,nervosismo mesmo,ainda no carro e “agindo com o coração“, combinei com o Bê que eu abriria a palesta e ele fecharia,pois aprendi com experiência em cerimoniais que o mais importantes deve ficar para o final.
Seguindo o funcionário responsável pela turno,Adilson, atravessamos corredores em direção ao pátio,quartos amplos com vários colchoes encapados de vinil azul, alguns ocupados mas a maioria vazios, ainda eram 20h, a turma estava chegando. Banheiro,de porta aberta,um refeitório grande , um barbeiro cortando o cabelo de um enquanto outros aguardavam e chegamos. A cena não é fácil, muitos deitados no chão,alguns bêbados ou drogados, outros jogando truco, ali haviam de 50 a 100 pessoas espalhadas em uma área de cimento, coberta,com paredes pintadas de branco e verde. O cheiro, apesar de suportável, não é agradável, so toma banho quem quer, porque segundo o “Direitos Humanos“, não se pode obrigar ninguém a se banhar…difícil entender, eu sei.
Bem, mas essa é outra história, imediatamente fui cercada por uns três ou quatro,queriam saber o que eu ia falar, qual era o tema. Um deles, de óculos e bem articulado, me olhou nos olhos e disse desafiador: ”Corrida? Sou professor, dá uma palinha então,mostra o que vc sabe,quero ver.“
– Vc vai ver – respondi – vc e todo o resto, vou caprichar, vim até com meu tênis vermelho! E mostrei os pés.
– “Olha, esse tênis é da Cola Cola, isso é a tocha? Perguntou apintando pro tubo que eu carregava. “
– É sim, daqui a pouco te mostro. – completei.
Outro se aproximou mais, cheirou meu pescoço e elogiou, não gostei, estiquei o braço em direção ao Bê e falei alto:
– “Bê, olha isso aqui, tão me assediando!“ – numa espécie de pedido de socorro bem humorado.
No mesmo instante o cara perguntou se eu era esposa dele, o Bê riu e respondeu: “É como se fosse.“
E o mais ousado se afastou.
Peguei uma mesa de plástico que estava em um canto, coloquei minha mochila em cima e tubo com tocha do lado. Erica, que já é conhecida de muitos ali,pediu a atenção e fez uma breve introdução.
Alguns poucos se aproximaram, olhares desconfiados de quem recebe muito mais “nãos“ do que “sim“ . Era a minha vez….
Pedi pra turma sentar, me apresentei como Laura,só Laura, recepcionista em um restaurante, contei uma historinha do paulo Freire que mostra que ninguém sabe mais do que ninguém e juntos poderíamos aprender mais, expliquei que eu estava ali não pra falar de “vida“, sabia que sobre isso eles poderiam dar aula, mas sobre correr comi a corrida é capaz transformar.
Então eles foram se chegando e sentando, um início de briga em um canto e um negro forte bem a minha frente levantou os braços e bravejou: -“Olha respeito com a moça“! 

Pronto, eu mereci respeito,valia a atenção.
Contei da perna quebrada durante a maratona, do desemprego, da China, do deserto do Atacama e então tirei o troféu da mochila, recebi uma salva de palmas e um mais engraçado levantou-se, me deu um abraço. E fingiu pedir um autografo.
Tirei a tocha olímpica e pedi para que passassem pra frente para que quem quisesse a segurasse, os olhos brilhavam, queriam saber tudo.
Falei então da proposta de formarmos um grupo de corrida.
Dois se destacaram, o fortão que me defendeu e um rapaz mais novo logo perguntaram como fariam pra participar.
Falei que no final explicaria.
Ouvimos então o Bê e sua caminhada de 2.500km por amor a filha…sim dois mil e quinhentos, eu não escrevi errado.
Vi muitos se emocionarem e eu mesma tive que segurar as lágrimas,o moço é diferenciado.

Então ele fechou com a mensagem:
“Qualquer distância se faz com dois passos: o Primeiro e o Próximo.
O primeiro é Deus, o próximo é vc mesmo e também o outro, porque nunca estamos sós e sempre precisamos de ajuda.”
Saímos de lá com 15 inscritos, seus numero de tênis e eu com o compromisso de estar de volta na segunda às 6:30h.
Não podemos correr antes de exames físicos e orientações de um profissional, mas estarei lá, para uma caminhada e mais, para darmos o primeiro passo.
E assim nasce o primeiro grupo de corrida de pessoas em situação de rua: CORREDORES DE RUA
Amém.

LB

 

2 comentários

  1. Lilas disse:

    Parabens Laura queridissima, vc e uma inspiracao para todos nos! Obs: veja que Prince Harry ja correu com moradores de rua por aqui – http://www.bbc.co.uk/news/uk-england-london-38763350
    Beijos, fique com Deus, sempre, saudades

  2. Karina disse:

    Fantástico Laura Barreto e envolvidos!! Esta ação é uma troca muito rica para todos, reflete até em quem está do lado de cá. Por um mundo com mais amor!! De tarde você estará no Mocca? Vou te passar alguns bonés e roupas do marido. Também vou solicitar isso ao amigos de alguns grupos e falar sobre este Movimento. Parabéns a vocês!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *