De Tirar o Sono

Hoje não tive tempo de almoçar, tinha que fazer uma pesquisa com a Helena (6), aproveitei então o intervalo e fui em casa para terminarmos, cheia de figuras.

Dispensei o escolar e levei as duas na escola. Por sinal uma das melhores de BH e as notas estão ótimas. Fomos cantando até lá, as duas lindas, saudáveis, inteligentes e muito queridas. Uma benção, agradeço diariamente!

Na volta, passei na lanchonete aqui em baixo de escritório para fazer uma saudável refeição de uma empada e Coca Zero (depois morre, reclama).

Na porta estavam três crianças, duas meninas e um menino,  mais ou menos da idade das minhas, 6 e 7 anos.  Pediram-me que pagasse um lanche. Eu pergunto:”Como é que alguém consegue comer depois disso?”  Eu não consigo.

Comprei um salgado para cada, suco e bolo. Sentei do lado delas  e comecei a assuntar. Estudam em um grupo no Jardim América e moram na favela do Papagaio, estavam por ali porque tinham “matado” aula. Puxei a orelha dos três ( de brincadeira), mas falei que estudar era muito importante. Claro que nem me ouviram, devoram as coxinhas já de olho no bolo. São crianças, gente!

Lembrei então de um caso muito antigo.  Minha irmã, que é psiquiatra infantil, ainda fazia residência quando foi atender um menino de cerca de 8 anos que, segundo a mãe, só podia ter algum problema  no “celebro”, já que era só parar  que dormia imediatamente, até em pé. Durante a consulta o pequenino cochilou várias vezes,  a mãe o acordava aos solavancos.

Preocupada e seguindo os protocolos, minha irmã solicitou alguns exames e pediu a eles  que retornassem quando ficassem prontos. Certo dia o menino voltou, sozinho. Alice então aproveitou a ausência da mãe e rara lucidez do garoto  para saber mais sobre a sua rotina.

Magro e abatido ele contou que ia para escola cedo e quando chegava ajudava a mãe a preparar os cartuchos de amendoim torrado que tinha que vender na rua, rodando os bares de BH.

O pobrezinho, sozinho,  só podia voltar para casa quando tivesse vendido todos, se não apanhava, por isso não tinha hora para chegar… às vezes dava sorte e chegava antes da meia noite, porém quase sempre ia dormir entre 3 e 5 da manhã. No dia seguinte começava tudo novamente.

Quando podia ele dormia sim, em qualquer lugar, principalmente na aula, mas  não tinha problema neurológico algum, só estava cansado e com sono…muito sono.

O que podemos esperar dessa criança quando adulta? Não muito… se estiver vivo ainda já é um vencedor. Assim como  também, a não ser por muita sorte, não podemos esperar daquelas que queriam só  lanchar uma coisa diferente. Não estão erradas, são só crianças!  Crianças!

Precisam ter saúde, de dormir, comer, estudar, brincar e de carinho…não estão pedindo mais do que deveriam ter por direito.

Não consegui comer até agora e provavelmente não conseguirei dormir. Não posso fechar os olhos para essas crianças, preciso fazer algo, não sei bem o quê ainda, aceito sugestões.  Há dois anos ajudo o Espaço Especial no natal, uma instituição particular, que com o apoio mínimo da prefeitura de Nova Lima, acolhe e trabalha o desenvolvimento e a integração de jovens com paralisia cerebral à sociedade. Agora, me parece muito pouco…

O que eu sei fazer é só comunicar, mas se o clientinho da minha irmã não dormia para vender amendoim, posso não dormir também para ajudar.

Não quero ser mártir, fazer voto de pobreza, nem nada parecido. Gosto da minha vida e sou muito grata por tudo que tenho e conquistei. Porém  posso e devo usar  meu “dom” e conhecimentos de alguma forma. Começarei colocando novamente o banner do projeto “Apadrinhe” do Fundo Cristão Para Crianças, um trabalho que sei que é sério e comprometido. Não é muito, mas já é alguma coisa.

O texto ficou pesado, eu sei. A vida real é assim…Se tirei o seu son, peço desculpas, dormir faz muita falta, né?

Me ajuda a ajudar?

Beijos,

Laura Barreto

 

P.S: Esse caso do paciente da minha irmã tem cerca de 15 anos ou mais. Posso ter confundido algumas informações, é bem provável, mas a história nunca saiu da minha cabeça.

 

8 comentários

  1. Viviane disse:

    Serve pra gente refletir…. Lindo texto…

  2. É Laura, vc tem toda a razão e eu sinto a mesma coisa qdo vejo algo assim e vc fez bem em dar-lhes comida e não dinheiro!

    O que mais me dá nó na garganta é ver a mãe ali escondida fumando o cigarrinho dela e obrigando os meninos a “trabalharem a dó alheia”.

    Moro em Buenos Aires há 8 anos e aqui existe a prática de “alugar” crianças para desfilar com elas nos transportes públicos, principalmente as com deficiência!

    O adulto fala que é pai ou mãe e que por isso não pode mais trabalhar e bla bla…é revoltante pq vc não sabe se ajuda ou não…se o dinheiro realmente vai para alimentar aquele menino ou não.
    A minha solução foi ter sempre na bolsa algum brinquedinho velho do meu filho e/ou pacote de biscoito na bolsa… pq dinheiro não dou mais!

    Mas algo que me marcou muito e que nenhuma das duas opções acima serviram, foi ver um bebe de uns 9 meses que chorava desesperadamente enquanto a mãe o empurrava num carrinho e arrastava mais dois e brigava com o “marido”…daí o cobertor dele caiu, corri, peguei e, corri atrás da mãe…qdo entreguei ela voltou a jogar no chão e falou que já não servia pq ele tinha feito xixi nele…qdo olhei para o bebe, ele estava peladinho e fazia um frio de pelo menos 5 graus…

    Daí eu chorei, chorei muito e o único que pude fazer foi rezar para que aquela pessoinha sobrevivesse aquele inverno…

    Nao sei se sobreviveu, mas a imagem dele ainda permanece na minha mente!

    Minha mãe é voluntaria de uma creche aí em BH há mais de 20 anos, perto do hospital Andre Luiz.

    Beso
    Dani

    • Laura Barreto disse:

      Ai Dani,
      Chorei…que triste. Me fez chorar, de verdade. Tenho dó das maes também, elas na maioria das vezes passaram pela mesma coisa, não conhecem outra realidade. Mundo cão!
      Esse programa Apadrinhe é muito bacana e se´rio mesmo, vc recebe até cartinha dos meninos e pode visitá-los. Ir pessoalmente na cgeché eu não dou conta, me detona,,, já tentei, Mas definitivamente precisamos fazer algo por essas crianças…
      Muito obrigada por compartilhar sua história.
      Beso

      Laura

  3. Dany disse:

    E o tal Marco Aurélio ainda vem aqui dizer que o blog é ruim…

    Texto pesado, sim. Mas infelizmente muito verdadeiro!

    Obrigada por compartilhar conosco.

  4. Pedro Salles disse:

    Cara Laura,
    aqui em São José dos Campos é muito raro mesmo você encontrar crianças na rua, pedindo esmola ou fazendo malabarismo nos sinais. A prefeitura faz propaganda no rádio pedindo para as pessoas não darem esmolas para não estimular esse comportamento.
    Aqui não é a Suiça ou a Suécia mas a prefeitura tem feito um trabalho excelente nessa área, ajudando as familias a manter as crianças na escola. Seriedade e competência da administração pública fazem muita diferença para a vida das pessoas mais humildes.

    Eu acredito que podemos e devemos ajudar protestando de forma séria (sem partidos políticos)contra a corrupção e incompetencia inaceitáveis do governo, que ROUBA o dinheiro dos nossos impostos que deveria ser usado para ajudar essas crianças. Lembre-se que em 2011 nós Brasileiros, ricos e pobres, já pagamos mais de UM TRILHÃO DE REAIS em impostos. De cada R$1.000,00 que gastamos quase R$500 vão direto para as mãos do governo (metade da “rabiola” do seu carro é imposto puro…) Essa situação não é normal, não pode ser!
    Somos Mineiros portanto: Libertas Quae Sera Tamen!

    Acredito que a outra forma de ajudar de fato (sem ser assistencialista) seja através da educação, só assim o futuro dessas crianças poderá ser mais seguro. A gente se orgulha de ver a evolução dos nossos filhos na escola, estimular a leitura, aprender matemática, português, geografia, história … Como você mesma já disse, a educação é o nosso legado para a vida deles.

    Eu já dei aulas de manutenção de automóveis em um curso gratuito para formação profissional de jovens (havia aula de inglês, garçon, eletricista, computação…). Foi uma experiência muito gratificante, ainda hoje encontro com alguns ex-alunos que me agradecem pela oportunidade.

    Minha tia Adélia dá aulas para crianças carentes do Pará de Minas, um dos meninos escreveu um texto em inglês e recebeu um prêmio mundial na ONU, basta ensinar o caminho que eles vão “ao infinito e além” …

    O caso que sua irmã te contou, na minha opinião é caso de POLÍCIA!

    Um abraço.

    • Laura Barreto disse:

      Pedro,
      O casop da minha irmã foi nos idos anos 80… Muitas pessoas que acompanham o meu blog nem tinham nascido… Internet nem pensava em existir. As coisas já melhoraram ( um pouco), mas ainda há muito o que se fazer.
      Concordo com tudo o que vc disse, investir na educação, exigeir nossos direitos, fiscalizar e não permitir robarelhas, de nenhum tipo! Desde a criança que quer furar fila até o espertalhão que fatura no Ministérios dos Transportes… pra mim é tudo a mesma coisa.
      Confesso que não tenho conhecimento suficientes para palpitar sobre política, indiferente disso sei o que é “certo e o que é errado’. aprendi não na escola, em casa!

      Outra coisa que é nossa obrigação: “Educarmos os nossos filhos”.
      Mais uma vez adorei seu texto. Vc deviria escrever mais.
      Abraços,
      Laura

  5. Alice Barreto disse:

    Esse caso foi no meu tempo de estudante de medicina, nos idos dos anos 80 do século passado, foi na aula de MGC (medicina geral de crianças), naquele tempo eu já sabia que conversar com as pessoas explica muito mais sobre o que se passa do que tomografias computadozizadas, mapeamentos cerebrais ou ressonâncias magnéticas (que ainda nem existiam!).

    Menininho fofo, aquele. Explicando prá mãe ela entendeu, ela não sabia que o filho dormia por falta de sono na hora certa.

    • Pedro Salles disse:

      É verdade, você tem toda razão, algumas vezes a gente imagina ou assume que as outras pessoas entendem certas coisas que para nós são tão elementares, lógicas e óbvias.

      Eu sou grato a um jovem médico que provavelmente salvou minha vida em Diamantina há uns anos atrás por um diagnóstico feito através de uma boa conversa (anamnese) no consultório.

      A comunicação é uma arte difícil de se dominar…

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