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Luz, câmera, ação!


Pelamordedeus! Porque não pensei nisso?!  É brilhante! Será que está em tempo de fazer uma versão parecida, no trabalho talvez?  Não, acho melhor não, 42 anos, duas filhas, uma carreira sólida… se já tá difícil assim arrumar namorado, imagina se faço uma coisas dessas?! É, melhor evitar!

Ah se eu ainda fosse  adolescente ou um pouco mais jovem…  mas Deus sabe o que faz, e isso me fez lembrar de um caso.

Então senta que lá vem história!

Nos idos e queridos anos 80 também atuávamos,  não fizemos exatamente como meu novo ídolo “Superman tupiniquim”, mas chegamos bem perto!  Éramos uma turma de mais de 10 meninas, todas lindas,de boa família e mentalmente perturbadas. Não tenho a menor dúvida disso.

Aposto que tem umas duas ou  três dessa turma – nesse exato momento –  lendo  e pensando com um indisfarçável sorriso nervoso no rosto: “Não, ela não vai fazer isso! “

Vou! Já estou fazendo!

O nosso negócio era o “duvido”. Bastava essa palavra pras coisas mais inimagináveis e ridículas acontecerem, por exemplo: Ir passear no  BH Shopping ( quando só existia ele), em pleno sábado,  vestida de roupão, pantufas e touca de banho. Nem eu acredito que fiz isso, pra quê?

Os desafios eram sempre assim, “quanto mais ridículo melhor”, mas às vezes eram por pura falta do que fazer… Em um janeiro chuvoso por exemplo, daqueles que não parava de chover nem um minuto há 20 dias seguidos , eu e a Menina Sorriso, cansadas de ficar dentro de casa vestimos equipamento completo de mergulho e fomos fazer uma caminhada na Bandeirantes.  Os registros dessas bobeiras, feliz ou infelizmente , estão só nas nossas cabeças – e nas de quem passou por lá. Não havia a facilidade de máquinas digitais.

Eventualmente filmávamos, com aquelas filmadoras super pesadas VHS. Normalmente  quando eu não era a apresentadora, estava filmando. Nem preciso falar que o roteiro passava também por mim, né? Sempre criado por várias mentes prodigiosas, mas com os toques especiais da Menina Sorriso – essa sim está desperdiçada!

Os filmes eram elaborados, 7ª arte,  como por exemplo, quando faltou álcool nos postos de BH. Quem tem mais de 30 anos deve se lembrar. Formavam-se filas intermináveis nos postos, tinha gente que até dormia  na fila.

Bastou dois minutos na casa da Menina Sorriso conversando sobre o assunto, uma troca de olhares e sem muita conversa lá estávamos, no Posto Ponte Nova, na Av. Nossa Sonhora do Carmo, com três carros e todo um elenco.

Domingo, fim de tarde, posto sinalizado por cavaletes dizendo – “Não temos álcool” -  fechando os acessos. Conversamos com o gerente do posto  e ele nos liberou o espaço para o “filme”. Pronto tinhamos uma locação!

Claro que liberou, imaginem 5 mulheres em volta dele com carinha de “pleeeeease”.

Aí começou a farra, colocamos os nosso carros como se fôssemos abastecer, em questão de minutos uma fila real estava formada.

A mãe da Menina Sorriso era nossa “câmera”, mais empolgada do que a gente, sempre!  Eu a repórter entrevistando o que as pessoas estavam achando da falta de combustíveis e quanto tempo seriam capazes de ficar na fila.

No primeiro carro a motorista  era a Garota Dourada ( preservando as identidades, mas não muito…) . No carro seguinte a Irmãzinha Prodígio da Menina Sorriso, então com uns 9 ou 10 anos de idade – ela fazia o papel da filha do motorista de taxi determinado a ficar na fila quanto tempo fosse. Detalhe, a Irmãzinha  Prodígio e a Menina Sorriso era muito parecidas! Irmãzinha parecia miniatura da Sorriso.

A tomada 1 estava pronta: pai e filha no carro, determinados a ficar lá  quanto tempo fosse preciso,  até o resto da vida!

Corta!

Na tomada 2, sai a irmãzinha prodígio e entra a Menina Sorriso no seu lugar, e o pai volta com uma máscara de velho,  como se tivessem passado 15 anos na fila.

Eu, a repórter, volto pra saber se  o motorista vai continuar lá e até quando. A Menina Sorriso aproveita e desabafa para as câmeras: “Isso é um absurdo, passei meu aniversário de 15 anos dentro do carro, quero namorar e casar como todo mundo, mas não posso, meu pai não vai sair daqui.”

Zoom no frentista e ela trocando olhares libidinosos. Corta!

E a fila do posto aumentando… Uns 15 carros nessa altura do campeonato.

Tomada 3:  sai o pai velho, entra no lugar uma caveira no banco do motorista. Câmera procura o frentista, zoom no frentista casado com a Menina Sorriso e Irmãzinha Prodígio no papel de filha desse novo casal.

Repórter entrevista o casal que se mostra feliz com a união, todo o tempo na fila valeu a pena! Encontraram ali o verdadeiro amor!

FIM

Aplausos do pessoal que estava na fila do posto, um sucesso!

Fala verdade, não é uma “obra de arte”!? Esse filme ainda existe, sei até com quem está… Qualquer dia passo pra DVD e coloco aqui, não duvidem!

Ahh e ainda tem a surper podução ” O Monstro do Lago”,  me aguardem!

P.S: Irmâzinha Prodígio é hoje uma apresentadora de sucesso da TV brasileira.

 

A Vida Não é Filme

Sou uma manteiga derretida, choro com qualquer coisa, sempre fui assim… Acho engraçado porém como vou rapidamente do choro profundo  a uma força, às vezes exacerbada e usada de forma errada,  que nem eu mesmo acredito… juro que não sei ainda se isso é bom ou ruim. Mas já sei que sou assim, assumo!

Comecei a “trabalhar”  ( detesto essa expressão, mas é assim que fala, né?) essas tais reações depois que a minha mãe morreu e mesmo assim por motivo de força maior. E põe maior nisso!

Eu ainda era casada, morava no Alphaville, passava muito tempo sozinha porque meu marido era piloto e voava com freqüência, tinha uma filha de 1 ano e 10 meses e outra de 3 meses quando minha mãe finalmente foi derrotada – depois de 13 anos de luta – por um impiedoso câncer. Ela estava em casa ( como queria e pediu) literalmente definhando, na cama, e a gente só podia esperar, não havia mais nada a ser feito. Nem água, nem comida, só a morfina pra aliviar o sofrimento.  Uma dor daquelas, sem tamanho…

Como minha irmã – que é médica e mora na Holanda –  queria estar aqui quando chegasse a hora, pedi aos médicos uma previsão de quanto tempo minha mãe teria. A conversa era justamente pra poder avisá-la. A resposta, igual aquelas de filme, foi um alívio e um susto: “agora é questão de horas, dias no máximo…”

Quando minha mãe, ainda lúcida, viu minha irmã chegando ficou uma fera. Falou que só por isso não ia morrer enquanto ela não fosse embora. A mulher encarava até a morte de frente. A morte, com medo dela,  obedeceu  e só a levou uma semana depois que minha irmã tinha voltado para Europa. Um mês depois do previsto pelos médicos!

Daí chegou a tia Dorothéa ( irmã da mamãe),  não imagino como teria sido sem ela naquele momento,  ajudou demais.  Mais do que a gente acha que dá conta, ela deu… Muito obrigada!

Foi nesse intervalo entre a ida da minha irmã e a morte da minha mãe que comecei a escrever. Enquanto ficava na casa do meu pai, com uma neném de 3 meses, ainda amamentando, escrevi sobre mim, sobre minha mãe, sobre a morte e a vida. Os textos são lindos, profundos, e estão perdidos… Não fiz back up e o computador estragou. Tenho esperança que meu irmão ou outro familiar tenha guardado os e-mails.

Eu achava que estava bem… tinha que estar, afinal de contas eram dois bebês dependendo, exclusivamente, de mim. Minha mãe estava morrendo, mas  a vida continuava, no caso a  minha e de mais duas. Não havia espaço pra luto antecipado, como também não cabia mais sofrimento.

Minha mãe morreu dia 9 de junho de 2005, uma manhã clara e fria. Eu tinha acabado de falar com meu pai, quando telefone tocou novamente e vi que era ele eu já sabia… Sentimentos conflitantes tomaram conta de mim: alívio, dor,alegria tristeza…tive certeza que por mais que a gente tente se preparar nunca estaremos prontos pra lidar com a morte. Ainda bem que é assim… gente não é máquina.

É nesses momentos que a vida testa a gente e na mesma semana veio mais uma lambada. O pote então transbordou…

Na noite anterior à missa de sétimo dia da minha mãe, Helena, com 3 meses de idade, chorou  e fui trocar sua fralda.

Tinha um pouquinho de sangue, acordei o pai dela que apesar de ter a aviação como atividade principal é um excelente fisioterapeuta e conhece muito da área de saúde.

Ele olhou, falou que podia ser só um vasinho rompido e que como ela estava calminha que voltássemos a dormir. Nem meia hora depois ela chora novamente, quando olho a fralda era puro sangue, encharcada!

Corremos com ela pro hospital. No exame de toque o sangue esguichou na parede, dali para o ultrasson, do  ultrasson direto para a sala de raio x pra tentar reverter o intestino que virara do avesso ( como a gente faz com meia) através de um procedimento chamado enema.

Apesar de não ser cirúrgico o tal do enema deve ser um horror: um produto pastoso  é introduzido no anus para , com a pressão, reverter a invaginação intestinal.

Até então eu estava “ inteira”, Tavinho entrou com ela e a cirurgiã para fazer o procedimento quando meu pai chegou no hospital. Era demais pra mim,   meu pai viúvo a menos de uma semana, agora estava novamente frente a frente com a possibilidade de mais uma perda. Ele chorou, eu então o abracei e chorei, muito… Tudo o que não havia chorado antes. Transbordei…

O tal procedimento “menos” invasivo não deu certo, a solução agora urgente era uma cirurgia. Meu Deus, que desespero ver aquela coisinha mais linda, branquinha com dois olhões assustados iguais aos meus, sendo levada já com soro pro bloco no colo do pai.

A cirurgia, como todas, tem seu riscos, mas é considerada simples. E foi, em menos de duas horas estava tudo terminado e Helena estava bem. Nova em folha, com um corte que tomava metade da barriga, pontos e soro, mas estava bem! Ufa!

O pai dela tinha que voar, era missa de sétimo dia da minha mãe, minha família tava toda lá. Fiquei sozinha… Minha outra filha também sozinha  em casa com a babá.

Perdi a missa da minha mãe, meu irmão leu um dos meus textos e explicou a minha ausência.

Minha prima Mônica se ofereceu pra “dormir” comigo e com a Helena no hospital, nunca esquecerei isso, sou eternamente grata. Minha pequenina chorava muito, imagino que de dor e fome… Foi também a  única vez que vi minha prima chorando.  Como ela me ajudou, não sei se teria dado conta sem ela, até convencer a enfermeira a deixar eu dar uma mamadeira ela conseguiu.

Depois disso tudo veio a  separação, aí precisei de ajuda profissional. Apesar de ter tido uma mãe psicóloga e  ter irmã psiquiatra sempre fui muito resistente a essas coisas de terapia e remédio. Com os remédios continuo sendo – minha experiência não foi boa, fiquei completamente mongolóide, tiraram Pedro Augusto ( o neurônio alone) de circulação. Mas a terapia, essa sim,  me ajudou e muito! Mas também, na tal “terapia sistêmica”, foi cada paulada  na moleira que se não concertasse matava.

Hoje acho que estou bem. Escrever é outra coisa que tem me ajudado muito. Mas às vezes dá umas baixas, como agora…

Helena hoje tem 5 anos  e está ótima, quase não ficou cicatriz e nunca mais teve nada. Graças a Deus.

Ontem a noite essa minha menininha, que deu  um sustão na mamãe,   pediu pra dormir comigo. Deitamos e liguei a TV pra  assistirmos um filminho juntas. Estava passando “Encantada”, um filme da Disney desses de princesa, com cantoria, bruxa, maçã, príncipe, amor verdadeiro e happy end. Claro que chorei no final, a Helena me abraçou e disse: “Não chora não mamãe é só filme”.

Mamãe sabe filhinha, mamãe sabe…